TUBOS PODRES DA EPAL VOLTAM A DEIXAR LUANDA SEM ÁGUA POTÁVEL

Luanda volta a ficar a seco — e já não é surpresa. Três dias depois de uma paralisação provocada por uma avaria eléctrica na Estação de Tratamento de Água de Kifangondo, uma nova rotura, desta vez numa conduta de grande porte (1200 mm) no bairro dos Pescadores, em Cacuaco, mergulhou novamente a capital do país num cenário de restrições generalizadas no abastecimento de água potável. O padrão repete-se com inquietante regularidade: falha técnica, interrupção, promessa de reparação “no mais curto espaço de tempo” — e silêncio sobre as causas estruturais e reais.

Por Geraldo José Letras

A sucessão de incidentes expõe muito mais do que simples avarias pontuais. Revela, acima de tudo, um sistema fragilizado, dependente de infra-estruturas envelhecidas, manutenção reactiva e um modelo de gestão que parece incapaz de antecipar o colapso.

As zonas afectadas — do Cazenga à Ingombota, passando pelo Rangel, Sambizanga, Cacuaco e áreas centrais como Miramar e Kinaxixi — desenham um mapa transversal da crise. Não se trata de um problema periférico: atinge tanto bairros densamente povoados quanto áreas administrativas e comerciais estratégicas.

Em muitos destes locais, a realidade repete-se: torneiras secas durante dias, famílias obrigadas a recorrer a chafarizes improvisados ou ao mercado informal de água, onde os preços disparam sempre que o sistema público falha. A escassez transforma-se rapidamente em desigualdade — quem pode paga, quem não pode, espera.

O caso da Maianga, onde uma rotura persistiu durante meses na rua Álvaro Canela antes de ser resolvida, é sintomático. Mais de 120 residências ficaram privadas de água por cerca de quatro meses devido a uma falha que, além de desperdiçar um recurso vital, degradava o asfalto e comprometia a mobilidade.

Este tipo de ocorrência levanta uma questão inevitável: quantas condutas da rede de Luanda estão em estado crítico sem qualquer monitorização preventiva eficaz?

A rotura reportada pelo Folha 8 às 15 horas de hoje em Cacuaco — numa conduta de grande diâmetro no bairro dos Pescadores — não é um acidente isolado. É, na prática, o resultado previsível de anos de subinvestimento na renovação de redes, aliados à pressão crescente de uma cidade que se expandiu muito além da capacidade planeada do sistema.

A Empresa Pública de Águas de Luanda (EPAL-E.P) opera com financiamento estatal significativo e enquadra-se num sector considerado prioritário. Ainda assim, a percepção pública é de que os investimentos não se traduzem em melhoria consistente do serviço.

A falta de transparência na execução orçamental, planos de manutenção preventiva, qualidade e origem dos equipamentos utilizados, alimenta suspeitas de má gestão e eventual ineficiência na aplicação dos recursos.

Num contexto em que Angola tem vindo a investir milhões no sector das águas, a repetição de falhas básicas — como roturas frequentes e paralisações por avarias eléctricas — sugere um desfasamento gritante entre o financiamento disponível e os resultados no terreno.

Outro ponto crítico é a qualidade dos equipamentos. Especialistas do sector têm alertado, de forma recorrente, para: uso de materiais de baixa durabilidade em condutas; ausência de sistemas modernos de detecção precoce de fugas; além de fragilidade na rede eléctrica que suporta infra-estruturas-chave como a ETA de Kifangondo.

A avaria eléctrica registada dias antes da rotura reforça essa leitura: o sistema não falha apenas na distribuição — falha na base operacional.

Os comunicados da EPAL-E.P seguem um guião previsível: reconhecimento da falha, garantia de intervenção técnica e apelo à compreensão. O problema é que a população já não reage com compreensão — reage com exaustão. Porque, na prática, o que está em causa não é um episódio isolado, mas um ciclo contínuo de falhas que afecta directamente a saúde pública, a economia doméstica e a dignidade urbana.

Luanda não enfrenta apenas escassez hídrica. Enfrenta uma crise de governação no sector das águas.

Enquanto não houver: auditorias públicas regulares à EPAL-E.P; divulgação clara da execução orçamental; investimento sério na modernização das infra-estruturas; responsabilização efectiva por falhas recorrentes; as roturas continuarão a ser tratadas como acidentes — quando, na verdade, são sintomas.

E assim, entre tubos que rebentam e promessas que se evaporam, Luanda continua a viver à espera de água — e de respostas.

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